A renúncia do Papa Bento XVI, histórico gesto de amor à Igreja.
Angélico Sândalo Bernardino



Hoje a Igreja Católica está vivendo um acontecimento extraordinário, o Papa em exercício, Bento XVI, deixa vacante, a sede do governo, até que novo bispo seja eleito para a direção da Igreja. Tantas foram as especulações sobre o fato, mas o que importa é que a Igreja demonstra que "Seu Corpo" permanece Vivo, através de sua Cabeça, o próprio Jesus Cristo, o Pastor supremo.

Ao anúncio da renúncia, guardei a frase de uma amiga, e minha professora de Teologia Moral e Doutrina Social da Igreja, Rosana Manzini, que disse: "Chocada com a noticia da renuncia do Santo Padre, dobro meus joelhos em oração." Postura magnífica, falou pouco, disse tudo. Fé e Razão não entram em disputa, dialogam.

Benedito Camargo

BENTO XVI, BISPO EMÉRITO!

Nosso amado Papa Bento XVI renunciou; agora, é Bispo emérito de Roma! Após seu histórico gesto de renúncia, marcado por grandeza de alma, humildade, fé, esperança e imenso amor à Igreja, choveram indagações, especulações, do que estaria por trás da atitude do Papa ao renunciar. Não faltaram inclusive, calúnias, intrigas, de tradicionais inimigos da Igreja. Ao anunciar sua renuncia, o Papa foi claro e preciso,dizendo: “Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino”.

Ao contrário de muita gente, não me surpreendi, como bispo emérito que sou com a atitude de Bento XVI, pois há 50 anos atrás, o decreto Christus Dominus, do Vaticano II, promulgado no dia 28 de outubro de 1965, pedia, “com empenho, aos bispos apresentassem sua renúncia à Autoridade competente em caso de idade avançada” (C.D.21). O Papa Paulo VI, no “motu próprio” denominado “Ecclesiae Sanctae", regulamentou esta recomendação do Concílio fixando a idade de 75 anos para a renúncia dos Bispos. Esta matéria está claramente legislada no cânon 401 do Código de Direito Canônico, sendo que, no cânon 332, se prevê também a possibilidade de renúncia do Papa. O Papa, Bispo de Roma, não foi porém incluído na fixação dos 75 anos para a renúncia. Os Cardeais o foram, conservando-se contudo aptos para participar do conclave eletivo do Papa até os 80 anos de idade, motivo pelo qual Dom Cláudio Hummes e Dom Geraldo M. Agnelo, Bispos eméritos, com menos de 80 anos participam da eleição do Papa. As razões alegadas por Bento XVI para sua renúncia são claramente as indicadas pelo Concílio há 50 anos atrás!

A Igreja, Mãe e Mestra, na longa história do papado, reconhece que somente Celestino V renunciou. Ele era monge e ficou no governo da Igreja somente cinco meses, renunciando já bastante idoso, no ano 1294, por se sentir incapaz para o cargo. Dante Alighieri o colocou no inferno pela renuncia e a Igreja o declarou santo!

Acredito que a generosa, profética, atitude do Papa Bento, agora bispo emérito de Roma, aprofundará o estudo sobre as questões práticas que envolvem os EMÉRITOS, abrangendo todos os ministros ordenados, do Papa ao Diácono. A Conferência dos Bispos do Brasil já avançou muito no campo dos Bispos eméritos, tendo inclusive, constituído no dia 19 de outubro de 2012 uma Comissão Especial para os Bispos Eméritos. O Papa Bento, em seu ato oficial de renúncia, afirma que “ no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grave relevo para a vida da fé, para conduzir a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que nos últimos meses, diminuiu em mim...”

Firmada em Jesus Mestre, Caminho, Verdade, Vida, iluminada pelo Espírito Santo, a Igreja não deve ter medo de lançar redes em mares mais profundos, de efetuar reformas que vão, desde o veemente apelo à conversão pessoal, à santidade de vida, às mais urgentes mudanças em muitas de suas estruturas em todos os níveis. O Santo Padre João Paulo II, em se tratando de questões ecumênicas, na encíclica “Ut unum sint”, convidava responsáveis eclesiais e teólogos de nossas Igrejas a amplo diálogo com o objetivo de “encontrar uma forma de exercício do primado que, mesmo sem renunciar de modo algum ao essencial de sua missão, se abra a uma situação nova”.

Bendito seja o Papa Bento, Bispo emérito de Roma, por sua atitude profética! Que, em seu amor profundo à Igreja, à humanidade toda, reze de maneira especial por nós, conservando-nos em seu coração, pois em nossos corações, ele tem permanente morada e imensa gratidão!

Dom Angélico Sândalo Bernardino
Bispo emérito de Blumenau (SC).

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